Empatia

Empatia

por Yoko Sowabe Produtora editorial e multimídia

Tadley, UK

 

Amigos tem a capacidade de fazer perguntas simples, mas que são muito difíceis de responder. Acredito que isso se dá pelo fato de conhecerem nossa personalidade e conseguirem ver o que nós deixamos passar. Foi o que aconteceu quando um amiga me perguntou: você poderia escrever o seu ponto de vista em ser mulher?

 

Eu concordei de pronto. Depois, refleti um pouco, percebi que a tarefa ia exigir um pouco mais.

 

Lembro que amava o ballet, estudei e me dediquei muito. Um dia contei a um amigo que tinha o sonho de ser bailarina e ele começou a andar na ponta dos pés de forma desengonçada. Uma péssima representação desse duro trabalho. Bailarinas treinam por horas, além de dançar precisam fazer academia, possuem uma dieta super controlada, sentem muitas dores musculares e precisam ser fortes.

 

As coisas nem sempre correm como esperamos e foi quando comecei a trabalhar em televisão. Amei meu trabalho desde o primeiro dia. Em uma emissora vi meninos na edição e meninas na produção. Lógico que nem todas são assim, mas essa era. Uma garota começou a trabalhar na edição, várias vezes ouvi dizerem que ela era louca, saia brava e ninguém entendia porquê, devia ser a TPM. Na época não dei importância.

 

Após longas jornadas de trabalho resolvi que queria ir mais longe. Ouvi um diretor: não quero mulher na supervisão, porque depois vocês ficam amigas. Outra dia me disseram: você não pode participar do processo de seleção para gerente, porque mulheres podem engravidar e essa vaga precisa de atenção integral. A censura dizia que eu devia ter reclamado, gravado, se não fiz, era porque estava exagerando.

 

Nesse ponto eu descobri que não gostava de ser mulher. Ser mulher era inadequado para ser quem eu queria ser. Comecei analisar; e se escolhesse casar e ter filhos. O tradicional não deve ter erro. Mas eu gostava mesmo é de trabalhar. E os números do feminicídio também estavam lá. Nada era garantido.

 

Meu marido vendo tudo isso, disse que ele podia escolher as coisas. E no caso das mulheres a sociedade escolhia. Foi aí que entendi tudo. Eu não era inadequada, a sociedade era. Ballet não é patético, minha colega tinha o direito de se irritar com os comentários que ouvia, competência não se mede por sexo.

 

Muitas pessoas vão falar que isso é mimimi, que já tinha muita mulher no mundo fazendo coisas incríveis sem reclamar. Tinha mesmo! Graças a força dessas mulheres as coisas estão mudando. Eu quero mais Tina Turner, mas sem o estupro que sofreu. Outra Madonna ou Lady Gaga, mas sem a hostilidade da imprensa. Roberta Close poderosa, mas sem ter que ficar na justiça por anos para reconhecerem sua identidade. Alguns exemplos.  

 

Ser mulher é um processo de auto descoberta. A cada dia eu descubro que tenho mais poder do que imaginava. As coisas que amo não me enfraquecem, mas me tornam especial. Ser mulher é comprar uma briga. Mas, tenho certeza que um dia outras mulheres não terão que brigar para serem quem querem ser.