Mulher é coisa séria

Mulher é coisa séria

por Rafaela Manicka, redatora, revisora e estudante de Letras

 

No último dia 8, comemorou-se o Dia Internacional da Mulher. Porém, desde então estou com uma pergunta que deveria ser simples de responder: comemorou-se exatamente o quê? As mortes de todo dia? O medo estampado na cara das minas ao precisarem voltar para casa sozinhas? Ou as respiradas fundas que é preciso dar quando se ouve comentários machistas cada vez mais frequentes?

Nunca havia parado para pensar sobre o papel que exerço como mulher até receber o convite de escrever esse texto, mas, a partir daí, troquei ideias com amigas, observei o que elas pensam de certas coisas que envolvem todo esse contexto e tudo mais. No dia em si, particularmente, fui obrigada a receber "parabéns" e a ter que lidar com piadas do tipo: seu presente é uma esponja e um detergente, faça bom uso. Além disso, ouvi duas outras mulheres comentando, alegres, que era naquele dia que as farmácias davam desconto. Eu, ingênua que sou (ou tolerante demais, não sei), fico quieta e observo demais acontecimentos: recebi bombom, um beijo, mais parabéns, homenagens no WhatsApp e no Instagram, palavras nitidamente de deboche e uma angústia cada vez mais profunda em mim.

Parabéns pra quê? Parabéns pra quem?

Naquele dia, fiquei pensando comigo mesma, sozinha, se eu realmente merecia tudo aquilo. Afinal, eu sou apenas um ser humano, como qualquer outro, tentando sobreviver ao caos que o mundo se transformou. Mas, por mais que eu pensasse nisso, lá no fundo tinha convicção de que sou muito mais - até porque eu sou mulher. E mulheres não são qualquer coisa. Elas são seres que pensam e vão além. São seres que batalham e são capazes de dar o que não tem para não faltar nada aos outros. Elas praticam a sororidade muito mais que qualquer um (visto o girl power imenso que existe num simples emprestar de absorvente). São atenciosas, atentas e, às vezes, atentadas. Fazem de tudo para não serem desmerecidas, desrespeitadas, desamparadas e tantos outros des. Ser mulher não é pra qualquer um: tem que ter peito; tem que ter garra. Tem que saber, desde pequena, que ela é a única pessoa que decide o que fazer com o seu corpo - e, infelizmente, tem que saber também que nem todo mundo leva isso a sério.

 

Mas mulher é coisa séria.

Em minha visão, quem nasce mulher nasce pra ser guerreira, já que tem que provar que é capaz das coisas. É capaz de estudar, trabalhar, cuidar dos filhos, ser mãe, esposa, filha, dona de casa, todos os seres possíveis em apenas um. Ser mulher é acreditar que vai dar conta porque, no final, vai ter que dar de qualquer jeito. Ser mulher é engolir o medo e enfrentar tudo e todos que já lhe disseram que não seria capaz, que não era para aquilo, que lugar de mulher é em casa. Até pode ser, desde que seja a dela, quitada e mobiliada. Mulher é bicho difícil, insistente, teimoso. É também alguém que não quer nada demais, apenas o que é de seu direito. Ela é poderosa, forte, merecedora. Ela é tudo o que a maioria das pessoas acha que ela não é - e ela não tá se importando muito com isso não, porque ela é daquelas que vai lá e faz.

Foi lá e fez.