Solidão e a autorreflexão

     No post anterior, iniciamos uma nova série, desta vez, sobre autorreflexão. Para o início, busquei trazer algumas questões para nos ajudar a descobrirmos quem somos verdadeiramente. Neste post falaremos sobre uma questão muito importante neste processo de autoconhecimento e autorreflexão: a solidão.

     Mas…como assim, solidão? Sim. Este é um caminho que nos leva a conhecermos quem somos e o que queremos. Vem comigo e vamos desvendar um pouquinho sobre esse estado tão temido e, ao mesmo tempo, tão necessário para a existência humana.

 

Solidão x Solitude

     Dois termos tão semelhantes, que, por muitas vezes, podem ser confundidos como iguais. Porém, há uma distinção substancial entre eles e que pode fazer toda a diferença em nosso entendimento.

Solidão: o ato de se sentir só e que pode ser de inúmeros fatores.

Solitude: um sentimento que confunde quem olha de fora, gerando uma sensação entre as pessoas de que aquele ser que está sozinho não está bem, está sofrendo. Mas, a realidade é outra, é de paz.

     Na solitude há um equilíbrio entre estar consigo e estar com o outro. Estar consigo significa estar em contato permanente com sua essência. É gostar de você, é cuidar de você e todos esses fatores fazem com que suas relações com o próximo também sejam cada vez melhores e saudáveis. Atingir um equilíbrio para que haja crescimento. Quem descobre o quão libertador é a solidão, já está maduro o suficiente para voltar ao convívio em sociedade, pois, já aprendeu a conviver consigo.

 

A sensação de solidão

     Como disse Orson Welles: “O homem nasce só, vive só e morre só. O amor e a amizade dão-nos a ilusão, momentaneamente, de não estarmos sós”. Já o filósofo Martin Heidegger, disse: “o ser no mundo é uma condição solitária”. Se é assim, por que é tão difícil estarmos sozinhos?

     A solidão deve ser um esforço, uma conquista para evitar o excesso de barulho interno e externo. Um botão de silenciar o que há ao nosso redor e ouvir o que de mais importante temos dentro de nós. Para muitos a solidão é vista com maus olhos. Como dito por Fernando Reinash: “A solidão é um problema criado pela sociedade moderna. Será que ele deve ser resolvido com uma droga ou com uma mudança de comportamento?”. Talvez uma droga ao estilo “soma” descrita no livro Admirável Mundo Novo, a qual nos faz sentir apenas sensações boas e não nos permite pensar, refletir, mas apenas ser e estar. Será que a solidão é tão prejudicial assim? Não!

     Quer começar a ver a solidão com outros olhos? Leia um livro, ouça uma música, tome um café olhando pela janela…essas são boas dicas para começar a se acostumar com a solidão de forma saudável e desintoxicar da necessidade da companhia. Continuemos...

 

Me, myself and I

     Essa expressão tão comumente usada na língua inglesa (significaria, literalmente: eu, comigo e eu mesmo) mostra um estado em que a sua única companhia seria você mesmo. Eu, particularmente, amo ficar sozinha. Sou filha única e desde muito pequena me acostumei à solidão. Eram nos meus momentos a sós que eu criava histórias, brincadeiras, onde eu era eu mesma, podia expressar meus sentimentos e meus desejos. Até hoje, AMO ficar sozinha. Obviamente, gosto muito de estar entre amigos e/ou em família, mas sei que é quando estou apenas comigo que a magia realmente acontece.
Como cresci assim, nunca entendi o medo das pessoas de estarem a sós. Não entendia a necessidade que muitos tinham de sempre estarem rodeados de amigos ou cercados por outras pessoas. Depois de muitos anos, entendi que muitos não gostam é de estar consigo mesmo, não suportam a própria companhia ou temem que este momento de solidão seja eterno. Como disse o professor Leandro Karnal: “Se o inferno está nos outros, o medo da solidão seria a opção para evitar o pior de todos os sofrimentos, nós mesmos?”
A única pessoa que estará ao nosso lado até o fim de nossa vida, somos nós mesmos. Então nada mais justo do que aprendermos a conviver, de forma saudável, com nossa própria companhia. Para começar a conviver com você mesmo, você pode seguir alguns passos:

  • Entender quem você é. Você pode iniciar esta descoberta no nosso post anterior.
  • Não esperar que outra pessoa preencha os espaços vazios que há em você. Busque preenche-los você mesmo. Seja auto-suficiente.
  • Procure realizar atividades sozinho, como ir a um restaurante, ir ao cinema, fazer uma viagem. Muitas vezes sua experiência será completamente diferente. Você perceberá coisas ao seu redor que não perceberia se estivesse acompanhado.
  • Aprenda a encontrar a paz na solitude e não um inimigo na solidão. Estar acompanhado é muito bom, mas não é sempre que teremos o privilégio de estar em boa companhia. Como diz o ditado popular “antes só do que mal acompanhado”.
  • Descobrir, entender ou buscar o seu propósito. Este será um dos temas abordados nesta série, mas adiantando um pouco sobre o assunto: seu propósito é o que te preenche, é o motivo pelo qual você vive. Para encontrá-lo o melhor caminho é uma conversa franca com você mesmo.

 

O crescimento através da solidão

     Provavelmente você já deve ter ouvido falar em Jesus. O homem que para muitos é o salvador, para outros, um profeta e para outro grupo apenas uma figura histórica, com certeza tem muita relevância em nossa cultura ocidental. Porque decidi falar dele em um texto sobre solidão? Quando Jesus começou sua jornada, ele escolheu 12 homens para andar com ele, seus discípulos. Esses homens andavam com Jesus para cima e para baixo, sempre juntos. Foram eles que testemunharam os milagres. Alguns deles relataram as “aventuras” de Jesus na Bíblia, eles estavam com o messias em todos os momentos, aprendendo e testemunhando tudo que ele fazia. Jesus não tinha um momento a sós, ele estava sempre cercado por multidões ou estava ao lado de seus discípulos e amigos. Porém, foi no momento mais importante de sua vida que ele decidiu ficar a sós.
Um pouco antes de ser levado, condenado e crucificado, Jesus foi sozinho para o deserto. Ele precisava de um momento a sós. O que Jesus buscava era um momento de paz através da oração e do jejum. Porém, o que veio até ele foi o Diabo e suas tentações. Por que “o coisa ruim” iria até Jesus no deserto? No seu momento mais íntimo? Simples, esse era o período mais vulnerável do Messias. O demônio tentou Jesus de todas as maneiras que podia, mas este recusou todas as iniciativas. Neste período, houve um crescimento em Jesus. Ele superou as adversidades e saiu do período de solidão mais forte do que quando entrou. Pontos importantes a serem enfatizados: 1-Jesus sabia quem ele era; 2-Ele conhecia e entendia o seu propósito; 3-Ele nunca se sentiu verdadeiramente só.

     Foi também sozinho no deserto que Maomé recebeu a visita do anjo Gabriel, que o concedeu o entendimento da palavra e o chamou para liderar o povo para um novo caminho. O maior profeta do islamismo foi ao deserto, sempre sozinho, por diversas vezes até terminar de receber a palavra divina e finalizar o Alcorão. Ele deixava sua família para trás por dias, pois, sabia que havia algo grande esperando por ele no deserto. Foi no deserto que Maomé descobriu quem ele era e encontrou seu propósito de vida.

     Obviamente os dois exemplos que dei acima estão ligados ao crescimento pessoal e também espiritual. Todavia, eles nos mostram a importância do momento a sós. Se os grandes nomes das duas maiores religiões do mundo buscaram o isolamento para crescimento, com certeza é algo muito significativo.

 

Mundo digital: dor da solidão x dor do contato humano

     Um dos maiores vilões para esse caminho de autorreflexão e autoconhecimento através da solidão é o mundo digital. Estamos sozinhos fisicamente, mas, ao mesmo tempo, totalmente conectados ao mundo.

     Vemos em diversos locais do planeta, como, por exemplo, no Japão, onde pessoas preferem estar sozinhos em casa e conectados ao mundo através da internet, inclusive manter relações amorosas e amizades 100% online, do que realmente se conectarem com pessoas no mundo real. Será o medo das relações interpessoais? Será o medo da rejeição? Ou será apenas um novo aspecto cultural onde os introvertidos estão dominando?

     As redes sociais são um grande exemplo para a solidão real + o pertencimento virtual. Quantas vezes estamos sozinhos em casa, mas o WhatsApp está tocando sem parar? A necessidade de convivência constante e contínua pode ser prejudicial ao nosso momento de aperfeiçoamento pessoal. “O convívio digital não nos oferece nem o isolamento necessário para o crescimento, nem a intimidade densa de uma relação humana”, disse o professor Karnal.

     A carência que sentimos, a falta que a apreciação do outro nos faz é um mal do mundo moderno. A quantidade de “curtidas” ou de comentários em uma foto pode nos fazer sentirmos abandonados. Mesmo que sejam reações digitais, para um momento que por vezes nem mesmo foi genuíno, há uma ânsia pelo sentimento de pertencimento, ou seja, a negação da solidão. Para muitos, a vida passa a ser vista como fútil e cheia de relações superficiais. Para outros, essas relações já bastam, pois, assim não se sentem sozinhos.

     Devemos entender a diferença entre a solidão real e a solidão virtual. Assim como as companhias reais e as companhias virtuais. Só assim poderemos caminhar em direção a uma solidão saudável e que promove crescimento e autorreflexão.

Para encerrar deixo um pensamento retirado do “Dilema do porco-espinho”, uma metáfora escrita por Arthur Schopenhauer: “Solitários, somos livres, porém, passamos frio. A dois ou em grupos as diferenças causam dores”.

 

Mais uma vez encoastamos apenas no topo do iceberg. Quer saber mais? Seguem algumas dicas:

O dilema do porco-espinho - metáfora de Arthur Schopenhauer 

Livro "O dilema do porco espinho" - Leandro Karnal

Livro "Como ficar sozinho" - Sara Maitland

Livro "Solidão, a conexão com o eu" - Anthony Storr

Artigo "Por que devemos, a nós mesmos, um tempo a sós todos os dias?" - Alan Lightman