HUS indica: Especial de quarentena

Estamos vivendo um momento único em nossas vidas. Pela primeira vez, nunca estivemos tão perto do início de uma história sobre um futuro distópico. O mundo sofrendo junto a impotência sobre um vírus, que nos obrigou a mudarmos nossas rotinas, nossas relações e a forma que vemos a vida. A quarentena forçada, mesmo que não seja total, em algum ponto nos trouxe momentos de lazer como também de reflexão sobre o quão pouco realmente controlamos nossas próprias vidas. Estou aqui para compartilhar com vocês alguns momentos de reflexão que tive durante este período de quarentena como também para convidá-los a refletir comigo através da indicação de algumas obras de ficção.

Como mencionei no início, o que estamos vivendo hoje me lembra muito o começo de um futuro distópico retratados em livros e filmes. Foram obras deste gênero que tem me acompanhado durante este período, tanto em pensamento quanto nos meus momentos de lazer. Resolvi então listar alguns livros e filmes como sugestão para vocês, e com isso trazer algumas reflexões sobre pontos em nossa sociedade, que com certeza não será a mesma após o Covid-19.

 

1- Nós

"Nós" é o principal romance fundador do gênero distópico. Escrita, ente 1920 e 1921, por Ievguêni Zamiátin a obra conta a história de uma sociedade mecanizada, onde não há espaço para o indivíduo (apenas para o coletivo), as pessoas não tem nomes e sentimentos como amor e felicidade, já não existem mais. Certos de que acabando com sonhos, fantasias e desejos eles encontraram a fórmula para a felicidade, o romance segue a jornada de D-503 ao se deparar pela primeira vez com tais sentimentos, fazendo-o questionar o modo em que sua sociedade vive.

O que mais me chama atenção na obra é a falta de sentimento da população desta sociedade futurística. Infelizmente, muitos de nós vivemos uma vida muito parecida, priorizando trabalho, esquecendo de sonhar e acreditando que nossas vidas, muitas vezes monótonas, são o suficiente para sermos felizes. Pergunto a você, durante este quarentena quantas coisas você vez que não fazia há tempos por conta de sua rotina agitada e muitas vezes mecanizada? Um livro fascinante, vale a pena conferir.

 

2 - Laranja Mecânica

Um livro de 1962 escrito por Anthony Burguess que ganhou sua adaptação cinematográfica em 1971 pelas mãos de Stanley Kubrick, Laranja mecânica logo se tornou um clássico da língua inglesa, se tornando um marco na história da cultura pop e da literatura distópica.

A história de Alex, membro de uma gangue violenta de adolescentes que sai as ruas buscando diversão, traz questionamentos importantes sobre liberdade, violência e sociedade.

O grande ponto do filme é a violência descontrolada. Uma sociedade com adolescentes egoístas, que buscam diversão tomando leite com alucinógenos e se divertem violentando principalmente crianças e idosos. Trazendo para o momento que vivemos hoje, vemos um grupo que se preocupa com a própria diversão, o próprio prazer ignorando o bem, a segurança e a vida do coletivo. Um clássico que deve ser conferido, seja através das páginas ou da sétima arte.

 

3- 1984

Este clássico distópico escrito pelo incrível George Orwell em 1949 e transformado em filme pela primeira vez em 1956 (em minha opinião melhor versão do que a adaptação feita em 1984). A obra trata do grande irmão (Big Brother) uma ferramenta de controle e vigilância criada por um estado totalitário. Este Big brother, sendo inclusive responsável pelo nome e pela premissa do famoso reality show apresentado há anos no Brasil e no mundo. A visão pessimista do futuro, apresentado por Orwell, é um reflexo de sua época e o anúncio do mundo em que vivemos.

Hoje vivemos em um mundo sem privacidade, como apresentado no romance, porém por opção própria e não por vigilância e imposição de um governo totalitário. O que vemos hoje nas redes sociais, é muito mais assustador do que o mundo distópico que nos foi apresentado em “1984”.

 

4- V de vingança

Filme de 2005 estrelado por Natalie Portman é baseado na HQ homônima publicada pela Vertigo (marca pertencente à DC comics). A história se passa no final da década de 2020, onde o mundo está em crise e em guerra; os Estados Unidos não são mais uma superpotência como consequência de uma guerra civil, enquanto uma pandemia mortal do "vírus de Santa Maria" assola o continente europeu. O Reino Unido permanece como um dos poucos países estáveis sob o regime totalitário do partido Fogo Nórdico (Norsefire), comandado pelo Alto Chanceler Adam Sutler. Opositores políticos, homossexuais e outros "indesejáveis" são presos e enviados para campos de concentração. O anti-heroi V resolve Mostar sua vingança sobre aqueles que o desfiguraram. (Não vou da spoiler, pois vale muito a pena a LEITURA, o filme também é bom).


Um futuro não muito distante, não é mesmo?

 

5 - Fahrenheit 451

Livro escrito em 1953 por Ray Bradbury, e adaptado pobremente para o cinema em duas ocasiões (1966 e 2018), a obra conta a história de Guy Montag em um futuro onde a função dos bombeiros é de queimar (!?) livros. Sim, é isso mesmo. Em um futuro onde as casas são 100% a prova de fogo, os bombeiros receberam a missão de queimar livros, pois estes tem o poder de fazer as pessoas pensarem e esta ação traz como consequência a falta da felicidade plena. Passado em uma sociedade, onde as “telas” são a família e amigos dos cidadãos, onde pílulas da felicidade são praticamente obrigatórias e o pensar, debater e ler são proibidos, descobrir o poder dos livros é libertador.

Uma excelente sugestão, principalmente hoje onde vivemos em um mundo de memes e notícias falsas onde pensar está cada vez mais em extinção.

 

6 - Admirável mundo novo

Aldoux Huxley, mais um britânico na lista, publicou em 1932 este outro clássico distópico. Para tentar pôr fim às guerras que ameaçavam destruir a espécie humana, um governo totalitário mundial impõe o mais completo controle sobre a reprodução: pais e mães são extintos, bebês passam a ser criados em laboratório — muitos deles através de uma técnica de cultivo de células que produz dezenas de gêmeos idênticos de uma vez só. Uma vez nascidos (ou melhor, desenvasados), os bebês passam por um rigoroso processo de condicionamento, que inclui choques e doutrinação por meio de frases motivacionais durante o sono. Tais técnicas complementam o uso de substâncias administradas durante a fase embrionária, num conjunto projetado para produzir castas de pessoas perfeitamente adaptadas às suas funções sociais, da “classe dominante” dos Alfas aos trabalhadores braçais Deltas e Ípsilons.

Se, por acaso, alguém se sentir desconfortável com o seu condicionamento, há um arsenal de remédios: o soma, droga recreativa "perfeita", sem efeitos colaterais; o sexo sem restrições (já que o casamento também foi abolido); e sistemas de entretenimento capazes de deixar no chinelo o cinema 3D e os jogos interativos de hoje.

O autor acertou quase que em cheio o retrato sobre a cultura do entretenimento e do consumo. Outro ponto sobre o qual pude refletir muito neste momento de quarentena, com a economia mundial em declínio, o que o capitalismo poderá fazer para sobreviver de forma sustentável?

 

7-  O conto da Aia

O bom livro escrito por Margaret Atwood em 1985 se transformou me fenômeno mundial ao ser adaptado para as telinhas na série Handmaid’s tale (título da obra no original) em 2017.

A história que retrata a república de Gileade, uma teonomia cristã militar com valores religiosos extremamente rígidos e punitivos. No mundo retratado, a fertilidade feminina está em baixa, sendo cada vez mais difícil das pessoas terem filhos. As poucas mulheres férteis remanescentes, são capturadas e se tornam Aias. Essas mulheres se tornam serviçais na casa dos líderes da república de Giliade e tem por obrigação manter relações sexuais com os homens da casa. Caso engravidem, após o parto a criança pertence à família e a Aia vai para uma próxima casa trazer a benção de uma criança para a família seguinte. A trama é o relato de uma Aia chamada Offred, que foi sequestrada quando tentava fugir para o Canadá com seu m marido e sua filha.

A maior provocação que a obra nos traz é sobre as escolhas e o corpo da mulher. Nós, mulheres, vivemos ainda em uma sociedade machista e temos dificuldades de nos impor seja no mercado de trabalho ou, seja culturalmente. Um belo questionamento para quem busca entender a necessidade de uma emancipação feminina.

 

8- Jogador número um

O livro mais novo da nossa lista foi escrito em 2011 por Ernest Cline. A obra infanta juvenil logo foi adaptada para o cinema por Steven Spielberg em 2018. A história se passa na década de 2040, onde as pessoas vivem duas realidades diferentes: a vida real e a vida no OASIS, que funciona tanto como um jogo de interpretação de personagens online e em massa para multijogadores e como sociedade virtual, para fugir de sua realidade. A obra mostra um mundo decadente, com uma realidade difícil de ser enfrentada, principalmente quando a sociedade em massa usa seu dinheiro (até mesmo vendendo casa e etc) para bancar novas bugigangas dentro do OASIS. Acompanhando a vida de Wade Watts, um. Jogador que, como muitos outros, busca encontrar um easteregg dentro de um desafio criado pelo co fundador do OASIS onde o vencer terá poder de controlar a realidade virtual.

A tecnologia sendo escape da realidade já não é novidade para nós. Na obra vemos amigos que não se conhecem pessoalmente ou como o próprio narrador diz “todo mundo está no OASIS por que não interagir apenas por lá?” e  que cada dia mais nossa sociedade real caminha para um distanciamento pessoal e aproximação virtual.

 

9- O Poço

Um dos filmes mais assistidos na época de quarentena é “O Poço”, filme espanhol dirigido por Galder Gaztelu-Urrutia, lançado em 2019 e distribuído pela Netflix. Situado dentro de uma prisão vertical o filme mostra o dia a dia da prisão, onde não se há contato com o sol e tudo que há para fazer é aguardar a plataforma e desce de andar por andar com um banquete preparado no andar 0. O luxuoso banquete fica em todos os níveis por apenas dois minutos antes de descer para o próximo. Nenhum preso pode segurar restos consigo, com o perigo de receber punição. A cada andar as pessoas comem o “resto” dos andares de cima. Vemos o protagonista passar por diferentes andares no decorrer do filme, ele inicia a saga no andar 48, passar pelo 6º e chega até o 220º, onde já não chega comida alguma. Durante sua experiência na prisão, o protagonista percebe que ninguém é beneficiado, mas quase todos resistem obstinadamente às mudanças, incentivando cada indivíduo a comer o máximo que puder enquanto estiver em situação favorável.

O filme trata de uma alusão as camadas da pirâmide social, onde quem está no topo tem acesso a mais e com mais qualidade, enquanto os que estão na parte inferior tem acesso à pouco ou à nada. “Existem três categorias de pessoas. As de cima, as de baixo e as que caem”, está é a frase que resume o filme. Muito a ser pensado…

 

10 - Ensaio sobre a cegueira

Um belíssimo livro escrito por José Saramago em 1995 e adaptado para o cinema em 2008 pelo brasileiro Fernando Meirelles, “Ensaio sobre a cegueira” traz em seu enredo uma epidemia de cegueira branca como leite, jamais conhecida antes, que se espalha rapidamente. Decidindo agir de forma rápida, o governo decide colocar os infectados em quarentena com recursos limitados. A força da epidemia não diminui com as atitudes tomadas pelo governo e depressa o mundo se torna cego, onde apenas uma mulher, misteriosa e secretamente manterá a sua visão, enfrentando todos os horrores que serão causados, presenciando visualmente todos os sentimentos que se desenrolam na obra: poder, obediência, ganância, carinho, desejo, vergonha; dominadores, dominados, subjugadores e subjugados.

É uma obra intensa, que mostra como em momentos de crise pode aflorar o pior do ser humano. Vale muito a leitura.

 

Espero que tenha gostado das dicas! Vamos pensar juntos?