Ócio criativo em tempo de quarentena

 

Nesta época de quarentena, muitos de nós nos deparamos com muitos momentos de ócio. Esta semana estava assistindo uma entrevista muito interessante no canal GNT, no programa "Papo de segunda". Na entrevista o rapper Emicida critica veemente o tal ócio criativo… e me perguntei: por quê? Ele mesmo se contradisse durante a entrevista, citando atividades que gostaria de fazer por prazer, como ler. O entendimento dele sobre ócio criativo me pareceu um pouco superficial e muito contraditório com tudo que se entende por ócio criativo desde a sua concepção em meados dos anos 90.

Então resolvi defender o ócio criativo durante a quarentena e vou explicar o por quê. Para que a concepção de ócio criativo fique clara, iremos analisar com muito cuidado cada aspecto dele de acordo com grandes pensadores, vamos lá?

 

O que é ócio?

Quando queremos entender qualquer conceito com certa profundidade, devemos primeiramente conhecer seu significado e sua etimologia.

Para começarmos: o que é ócio? Segundo o dicionário Michaelis, ócio é tempo de descanso, aversão a qualquer atividade física ou mental; qualquer ocupação agradável.

Já a etimologia da palavra ócio, vem do Latim Otium, que,por sua vez, também tem como significado “empenho acadêmico”.

Vejam só, enquanto ócio tem como entendimento, aversão à qualquer atividade física ou mental, ela vem da mesma palavra que defende um certo empenho acadêmico.

O professor Mario Sérgio Cortella, nos traz um pensamento muito interessante: O ócio é uma escolha. "Quem não está no ócio, esta na negação do ócio. Por isso que a filosofia é fruto do ócio. Ócio é diferente de vagabundagem. Preso, desempregado não tem ócio". Ócio = tempo livre de escolha

 

O que é ócio criativo?

É uma ideia desenvolvida pelo professor e sociólogo italiano Domenico de Masi, na década de 90 nos livros Ócio criativo e Economia do Ócio. O professor criou essa concepção como uma proposta que visa unir atividades como trabalho, tempo livre e estudo, ou seja, ele é alcançado quando praticamos essas três atividades ao mesmo tempo. Segundo o autor: “É necessário aprender que o trabalho não é tudo na vida e que existem outros grandes valores: o estudo para produzir saber; a diversão para produzir alegria; o sexo para produzir prazer; a família para produzir solidariedade, etc.”

Para De Masi, “Existe um ócio alienante, que nos faz sentir vazios e inúteis. Mas existe também um outro ócio, que nos faz sentir livres e que é necessário à produção de ideias, assim como as ideias são necessárias ao desenvolvimento da sociedade.”

Para Cortella “Muita gente tem a sensação de perda de tempo se está numa atividade não rentável.” Esse tem sido um dos problemas que nossa sociedade encontra.

Atualmente, vivemos em um mundo onde a carreira e a vida profissional tem sido colocadas em primeiro lugar. Os famosos workaholics têm sofrido muito nesse momento em que vivemos durante a quarentena. Cortella ainda afirma: “Nota-se cada vez mais a incapacidade que temos de simplesmente pararmos. Não gostamos de ficar parados sem nada a nos ocupar.” É aí que o ócio criativo entra. Não por que há uma necessidade de ser produtivo sempre, mas como uma opção, muitas vezes escolhida inconscientemente.

 

Como aproveitar o ócio criativo

Emicida em sua fala durante à entrevista, disse que fazia tempo que não sentava e lia um livro. Disse que a pressão para produzir durante seu momento de ócio o incapacitava de realizar tal ação que para ele é tão prazerosa. Foi neste momento que percebi a inconsistência em sua fala anti-ócio criativo. Se ele estava produzindo durante a quarentena, ele estava trabalhando, não estava em ócio, mas se ele sentou e leu um livro, ele estava desfrutando do ócio criativo (pausa do trabalho + tempo livre + estudo).

O que ele quer é o que todos buscamos: equilíbrio. Equilíbrio entre trabalho e lazer, nem tanto ao céu, nem tanto ao mar.

Durante esta quarentena muitos estamos no mesmo barco. Saímos de uma rotina extremamente corrida, muito trabalho, pouco tempo para lazer e estudo (aprimoramento pessoal). Esta é a razão de termos um momento perfeito para praticar o ócio criativo.

Cortella defende que “O tédio cria um ambiente fértil para a criatividade vir a tona” e que “Estar no ócio significa a oportunidade de ir atrás daquilo que não se sabe”, “a desocupação é criativa na medida em que permite que você note o que não era notado. O olhar rotineiro é um olhar distraído”.

Sentar, ler um livro, olhar pela janela, ver um filme, ouvir música… tudo isso faz parte do ócio criativo. Você está aumentando seu repertório sem se dar conta. Ideias pensamentos, sonhos, projetos, podem surgir a qualquer momento.

O professor Leandro Karnal diz que “O ócio criativo é fundamental para se poder trabalhar. Cada vez mais nós estamos workaholics, cada vez mais imersos em atividades que exigem a nossa atenção imediata, prática, cronológica. Isto nos torna pessoas cada vez menos produtivas. É preciso o ócio criativo, no sentido da capacidade de pensar, ter ideias, estabelecer estratégias, dar passos seguintes, o que é diferente de se viver imerso nesse oceano de ações cotidianas.”

 

A tecnologia como vilã do tempo

Mesmo estando em quarentena, muitos de nós não paramos de trabalhar. O motivo é simples: tecnologia. Enviar e receber emails, reuniões por videoconferência, ligações, mensagens de WhatsApp… muitas são as ferramentas que nos laçam ao trabalho estando no escritório ou me casa. Mesmo antes deste período de quarentena, quem nunca tirou o celular do bolso para ver email corporativo enquanto estava na fila do pão ou no mercado? Ou quem nunca recebeu uma mensagem de cliente, ou do chefe, enquanto assistia Netflix em casa?

Essa ligação que temos com a tecnologia é maravilhosa e, ao mesmo tempo, escravizadora. Karl Marx já dizia que a tecnologia iria apressar os processos, nos dando mais tempo livre para ser aproveitado. De certa forma, ele estava certo. Porém, estamos fazendo mais coisa em menos tempo e usando o tempo extra para fazer mais coisas ainda. Ou seja, com o uso da tecnologia estamos trabalhando mais, inclusive durante nosso tempo de lazer. O problema, segundo Cortella, não é a tecnologia em si, mas o seu uso imoderado e aleatório. Não paramos nunca.

De certa forma isso não é bom? Sim e não. Você pode até ser mais produtivo por um período, mas com o passar do tempo, aqueles momentos de descanso, aquele ócio prazeroso que você deixou de desfrutar, pode gerar um grande desgaste. Parar para descansar não é perda de tempo. “Você ganha tempo, se sabe o que fazer com ele e usa o tempo de forma inteligente, se aquilo o fez crescer. Você perde tempo, se faz alguma atividade sem saber o propósito da ação.”, como defende Cortella.

 

Como usar melhor seu tempo de quarentena?

Como Henry Ford bem disse: “Pensar é o trabalho mais difícil que existe. Talvez por isso tão poucos se dediquem a ele.” Aproveite esse tempo para pensar ou repensar alguns pontos de sua vida.

Usar nosso pouco tempo na Terra com sabedoria é o maior desafio do século. Aproveite esse momento de quarentena para buscar equilíbrio em sua vida. Já vimos o quanto o trabalho excessivo pode ser nocivo, mas tempo livre demais também pode ser. Encontre o ponto perfeito onde trabalho, tempo livre e estudo se encaixem. Cultive seu ócio criativo da melhor forma possível, não apenas buscando ser um melhor e mais produtivo profissional, mas também para ser uma versão melhorada de si mesmo.

Para encerrar, deixo um trecho de “Tenta esquecer-me” de Mario Quintana: “Toda a tristeza dos rios é não poder parar!”

 

Neste post nós encostamos na pontinha do topo do iceberg que é o ócio criativo. Quer saber mais sobre o assunto? É só checar a bibliografia usada durante este post:

Ócio criativo - Domenico de Masi

Economia do ócio - Domenico de Masi

Por que fazemos o que fazemos? - Mario Sergio Cortella

A sorte segue a coragem! - Mario Sergio Cortella